III Festival Rock do Deserto: dois dias de som autoral chapado em BH

Chega a ser um pouco constrangedor, pela obviedade, mencionar a importância da música autoral. Mas esse clichê às vezes se faz pertinente em meio a circuitos do rock cover e tendências duvidosas. Longe de simplesmente reclamar ou apontar possíveis culpados, a intenção é sempre de valorizar e promover atitudes positivas, como as da produtora Deserto Elétrico, de Belo Horizonte, responsável pelo Festival Rock do Deserto – um dos oásis de frescor cultural na cena da cidade.

Em sua terceira edição, o evento de Stoner Rock trouxe à tona todo o profissionalismo de jovens bandas que mantêm pulsante um cenário atrativo para quem aprecia uma boa música pesada, densa e chapada na terra das alterosas. Nos dias 28 e 29 de julho, a casa de shows A Autêntica foi escolhida acertadamente – pela proposta e estrutura do local -, para sediar o III Festival Rock do Deserto. E o público pôde conferir uma boa amostra da atual safra mineira, além de uma sessão de porradaria ultrassônica gringa por conta dos californianos do The Shrine.

Primeiro dia

O festival começou bem, pois os malucos da banda Mad Chicken vieram de Arcos, interior de Minas, para dar início à chapação. Se à primeira vista parecem meros adolescentes que se conheceram no colégio e resolveram formar uma banda, não se engane, pois é essa mesma a história deles. Embora seja um grupo formado por jovens aparentemente obcecados por galinhas – o nome da banda e músicas do naipe de “Chicken Shit” e “Why the Chicken Cross the Street?” servem como amostras -, o Mad Chicken usa a ingenuidade ao seu favor e afasta quaisquer dúvidas acerca de seu potencial imediatamente pelo alcance vocal de Filipe Xavier e por um som coeso, com nítidas influências do Grunge.

A influência Grunge viria a se fazer presente nas duas apresentações seguintes: as das pratas da casa Lively Water e Green Morton. A primeira evoca Soundgarden e Audioslave em sua sonoridade e, principalmente, no timbre do vocalista Henrique Parizzi, que se assemelha bastante ao do Chris Cornell – sim, isso é um elogio. Na sequência, o Green Morton apresentou ao público, em primeira mão, os sons de seu aguardado primeiro álbum cheio, “Ultradeepfield” – petardo cuja data de lançamento se daria algumas poucas semanas após a apresentação.

Para encerrar a primeira noite do festival, ninguém seria mais apropriado do que The Shrine. No embalo dos principais festivais europeus, como o Hellfest, e de abrir shows do Slayer, a banda de Venice veio iniciar sua turnê sul-americana em BH e trazer abaixo o palco d’A Autêntica. Se a premissa do Stoner Rock – e de todo rock pesado, para ser realista – é o Black Sabbath, aqui esse ponto de partida vai de encontro ao Black Flag. E quando o peso de sons mais tradicionais se une à urgência do Hardcore Punk, é que nos lembramos de que Rock bonitinho demais às vezes cansa e um pouco de sujeira se faz necessário. Um show intenso e sem frescuras que há muito não se via na cidade. Quem tiver a chance de conferir esses doidos ao vivo, não deve desperdiçá-la.

 

Segundo dia

A etapa seguinte do Rock do Deserto privilegiou apenas grupos de Belo Horizonte e começou com uma grata surpresa: Kalfas. Trata-se de uma banda fascinada por temáticas da mitologia e ainda com poucos registros. O que mais impressiona na performance dos caras é a naturalidade com que transitam de sonoridades ambientes e psicodélicas ao Sludge mais desesperado, lembrando um Neurosis em seus momentos mais intensos.

Completar quatro anos de carreira e promover o lançamento de um álbum são motivos para qualquer artista comemorar. E foi isso que o Governator Insane fez na sequência. A diferença é que a ocasião marcou também o encerramento das atividades da banda. Eles, que estiveram presentes em todas as edições anteriores do festival, se despediram nesse clima de contrastes, com emotividade e sons do disco “Youth”. Um belo testamento, até segunda ordem.

A terceira apresentação da noite ficou a cargo do Pesta. Aos primeiros acordes de “Black Death”, fica perceptível que a banda bebe nas fontes corretas: Pentagram, Saint Vitus, Cathedral e, obviamente, Black Sabbath – e é neste último que a banda mais encarna. Do baterista Flávio Freitas, cuja postura remete a um jovem Bill Ward, ao vocalista Thiago Cruz, que mais parece possuído por algum espírito hippie infernal, tudo remete às boas origens do gênero musical aqui celebrado. Isso somado a uma parede de riffs e temáticas insalubres – cortesia do letrista Anderson Vaca -, torna o Pesta um dos principais nomes da atual cena Stoner-Doom-e-afins nacional.

Para encerrar com chave de ouro e um tapa de luvas (de boxe) na cara, a atração mais destoante de todo o festival: Colt.45. Com o recém-lançado álbum “Extinction” nas mangas, a banda destilou toda a sua mistura brutal de Death Metal com algo de NYHC e de metal capiau à la Pantera. Porrada e técnica na medida certa, com destaques para a presença energética do vocalista Marcelo Santana e a precisão cirúrgica do baterista Manfredo Savassi.

Um texto de Frederico Borges e fotos de Lucas Alexandre Souza

Cobertura III Festival Rock do Deserto 

The Shrine ao vivo na A Autêntica/III Festival Rock do Deserto

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