Anarcosynth pós-apocalíptico: um set exclusivo por Karezza

Quem frequenta a noite de Belo Horizonte, Florianópolis, Londres e mais um par de cidades a partir da última década, muito provavelmente já entrou em contato com o som deste artista de muitos nomes. O inquieto DJ e produtor, conhecido também como Nico Andrade e Fatumbi – e mais alguns pseudônimos relacionados a diferentes momentos de sua carreira -, hoje assume a persona Karezza e explora gêneros como No-wave, Minimal-Synth e Synth-Punk como poucos. Facetas distintas de um artista que, ao longo dos anos, mantém a tradição de dar um benéfico tapa na cara do conformismo na pista de dança e de tendências grotescas como o EDM. E para se ter uma ideia do que toda essa atitude contestadora representa, nada melhor do que conferir um set EX-CLU-SI-VO para a Extravaganza, feito por Karezza a partir de registros de K7 e vinil. Confira, portanto, um breve bate-papo com o artista e o impactante mix intitulado “Promissed Wastelands”.

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Quem é Karezza?

Há 12 anos já toco como DJ, mas sempre fui averso a esse culto ao DJ. Repertório é minha prioridade, e a identidade é cosmética (algo que aprendi com o Bowie). Karezza é a persona musical que adotei para continuar minha carreira de DJ na Inglaterra, onde morei por 4 anos. Quis explorar minhas raízes musicais, pesquisar tudo aquilo que já ouvia quando morava no Brasil. Lá fui naturalmente guiado para as festas underground, o polimorfismo sexual e as vibes oitentistas – tendo como destaque a KAOS, (festa que atualmente acontece no icônico clube Electrowerkz, uma relíquia gótica, hoje ameaçada por um plano de expansão do metrô). O meu nome de DJ foi retirado de uma prática sexual exotérica que, de certa forma, reflete o estado de humor da minha música (nada muito “hands up in the air” com pose pra selfies). Acho que busco seduzir a audiência com introspecção e ecletismo, e acredito que eles tem seu lugar na pista de dança! (risos). Atualmente trabalho em composições autorais através do projeto The Lost Tapes of Sine Khunrath, que visa ser inteiramente analógico, construído com base sonoridades lo-fi e referências bem pessoais.

Digital ou analógico?

A minha história com o K7 é antiga, e pode ser traçada até minha infância. Sempre achei o formato interessante e recentemente tenho pesquisado sonoridades que escaparam da Era Digital. Chame de nostalgia, embora existam outras razões. Em Londres tomei conhecimento da Loudness War, e isso me fez procurar outros meios de ouvir música. Vinyl e K7 eram as opções mais óbvias, já que existe uma cultura de colecionador muito grande por lá. Nada contra os formatos digitais per se, mas creio que o ouvido humano talvez precise de estímulos diferentes… – e você sabe, o MP3 aumenta a altura de tudo por causa da perda de qualidade ocasionada pela compressão típica do formato, e para alguns isso afetaria até nossa capacidade auditiva, surdos ao prazer de ouvir música atento as suas nuances. E convenhamos: uma caixinha de computador não foi feita para apreciação musical, né?

Qual a proposta desse set?

Esse mix chama-se Promissed Wastelands e foi quase inteiramente construído a partir de registros retirados de K7 e vinil, com ênfase em música Industrial, No-Wave e Minimal Synth da década de 80, (além de representantes do seu revival atual, chamado por muitos “Cold Wave”). A ideia aqui é divulgar uma tendência de som eletrônico bem DIY (do-it-yourself) e antes da popularidade dos computadores. Muito do que vi circular nos clubes mais “mal-frequentados” da Europa – uma sonoridade de glamour decadente com pegada mais suja e densa – evitei o bate-estaca deliberadamente, apesar de ser absolutamente apaixonado por techno!

Sobre a seleção, você se incomoda em entregar o ouro?

A faixa de abertura (A Shadow in the City) é um registro obscuro da célebre dupla Mick Jagger e Jimmy Page, ainda bebendo na psicodelia da década de 60 – e é ela que dá a tônica pós-apocalíptica da seleção. Na primeira metade trouxe registros antigos de artistas como a Ericka Irganon (uma das compositoras minimalistas do Ptôse), o Californiano do Problemist (William Davenport, um bacana ainda na ativa!) e os espanhóis do Diseño Corbusier – em álbum clássico recentemente relançado pela Dark Entries Records (uma das melhores gravadoras no gênero). Obviamente a faixa do Herz Juhning (Road to Paradise) influenciou o título do set… Em certo momento trago um pouco da cultura AnarchoSynth grega e germânica, com destaque para o Χωρίς Περιδέραιο e o excelente grupo de no-wave de Kiel, o No More. Para fechar incluí alguns beats de artistas tampouco categorizáveis: John Bender, We Be Echoes e Nash The Slash (este último um tipo de Ozzy Osbourne vs Synthpunk). A última faixa não é New Order, mas sim La Fete Triste, e veio de um K7 que não quis otimizar digitalmente – deixei o registro fiel à mídia de onde foi retirado.

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Entrevista realizada por Frederico Borges
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