Uma conversa com Henrique Roscoe, o VJ 1MPAR

A versatilidade de alguns artistas pode fazer com que a tarefa de rotular o seu trabalho seja árdua. Henrique Roscoe se intitula artista digital, músico e designer. Mas o alcance de sua obra, assim como seu ramo de atuação, é bem mais amplo. Videomapping, vídeo cenografia, design e diversos recursos audiovisuais se transformam em ferramentas tanto para a comunicação assertiva quanto para a arte conceitual e questionadora.

Trata-se de uma esfera onde o digital se une ao analógico e a criatividade se apropria da máquina. De ações corporativas inovadoras a instalações artísticas multissensoriais e totalmente autorais; de públicos de nicho a multidões em Copacabana. Tudo se transforma em cenário para a performance de Roscoe, também conhecido como VJ 1mpar – pseudônimo que sintetiza bem a principal característica de sua obra.

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Você parece ser bem prolífico. Quais são os seus principais projetos? E quais as suas áreas de atuação?

É verdade. Trabalho em várias áreas e estou sempre produzindo algo novo. Trabalho basicamente com audiovisual ao vivo, ou seja, criação de som e imagem para execução em tempo real – seja numa apresentação artística, na forma de instalações, projetos corporativos etc. Tenho os projetos autorais HOL e Ligalingha, onde produzo performances que envolvem som e imagem tocados ao vivo, e também com instalações interativas, videomapping, vídeo cenografia, música, trilhas sonoras, VJ etc. Sou músico desde adolescente e trabalho com imagem há mais de 15 anos. Aos poucos fui fazendo uma fusão das habilidades e experiência que tenho nestas duas áreas para criar novas formas de se trabalhar com audiovisual. Dentro deste espectro, atuo tanto como artista elaborando meus próprios trabalhos quanto como designer, usando estas mesmas técnicas para produzir projetos mais comerciais e corporativos

Entre suas diversas colaborações, existe alguma que tenha te surpreendido mais?

Talvez o que tenha me surpreendido mais tenha sido um trabalho que fiz para um cassino em Las Vegas, onde tinha mais de 60 projetores à disposição, além de poder controlar telas que se movimentavam e sincronizar tudo com o som e iluminação para criar um espetáculo estilo Broadway. Em outros, tive prazer em fazer pela grande quantidade de público como o Live Earth e o Roberto Carlos na praia de Copacabana. Gosto também do resultado da cenografia que fiz para o Skank, que está na estrada com eles há alguns anos e funcionando bem. Já os autorais, apesar de ter menos público, dá muita satisfação quando consigo fazer ao vivo tudo que imaginei desde a elaboração do tema.

“Ser humano versus máquina” é uma temática recorrente em seus projetos. Você torce pra algum lado específico?

Pra mim a máquina é uma criação humana a serviço do homem, para facilitar a vida dele e fazer coisas que ele não consegue. Mas se tiver só um lado não funciona. Tem que haver um equilíbrio entre as partes pra tirar o melhor de cada uma. Sem criatividade não se chega a lugar algum e isso é um atributo humano. Mas, por outro lado, as máquinas permitem ao homem otimizar suas qualidades e reduzir suas fraquezas. Por exemplo, ao usar variáveis que geram números aleatórios em minhas performances, consigo chegar a lugares que talvez não imaginaria sem o “apoio” destas imprevisibilidades. Os instrumentos que desenvolvo muitas vezes também direcionam criativamente meu trabalho. Além disso, a programação permite automatizar alguns elementos básicos enquanto foco nas partes mais importantes da performance.

Como o analógico convive com o digital em sua obra?

Gosto muito do digital, pois ele permite fazer a grande maioria das coisas que preciso, sem a necessidade de uma fonte externa. Como as minhas imagens e sons são (quase) todos gerados via software, o computador é essencial para a sua produção. Mas há algum tempo tenho buscado outras formas de fazer meu trabalho, tentando sair da tela plana de projeção e produzindo instalações que entram na área das esculturas, ocupando tridimensionalmente o espaço. O uso do corpo também tem tido uma importância crescente no que faço. Tenho buscado um equilíbrio entre o analógico e o digital, a fim de conseguir o máximo dos dois lados. Mas acredito que a parte de programação, que me permite gerar conteúdo dinâmico em tempo real estará sempre presente. Gosto muito de movimento, então a música e o vídeo fazem parte do meu dia a dia. E como gosto de ter a possibilidade de fazer tudo ao longo do tempo, modificando cada elemento de acordo com o que quero dizer, a programação – que é essencialmente digital – tem um papel muito importante no processo.

Quais os equipamentos ou objetos mais inusitados você já usou como instrumento?

O primeiro instrumento que construí foi uma pequena guitarra, quando tinha uns 20 anos. Usei tacos de rodapé como braço e pedaços de madeira para o corpo. Depois muito tempo se passou até eu me interessar novamente pela criação de instrumentos, já com o foco na eletrônica. Desde 2006 comecei a construir instrumentos e interfaces para controlar minhas performances, e para alguns usei objetos do cotidiano como uma caixa de Mentos (Therementos); latas de cerveja, antenas de carro e embalagem de comida para fazer uma bateria eletrônica; uma caixa de fita como corpo de um sintetizador de som e imagem etc. Por outro lado, também gosto de criar projetos do zero, onde posso projetar o desenho completo do instrumento. Foi assim com os instrumentos que uso no Ligalingha – Ligam, Videola, Violuino – e em outros que criei para performances do HOL. Estes, além do desenho criado por mim, sua própria forma e modo de funcionamento fazem parte da narrativa.

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Therementos: um instrumento semelhante ao theremin, cujo suporte é uma caixa de balas.

 

“Ponto, um videogame sem vencedor” repercutiu bastante. E não apenas no Brasil. O que mais parece ter chamado a atenção das pessoas para esse projeto?

Acredito que tenha sido uma soma de fatores. O projeto é inédito no mundo. Não conheço outro deste tipo, onde um artista tenha criado uma performance audiovisual conceitual sem o uso de um computador, e conseguindo gerar todos os sons e imagens ao vivo, sem loops pré-gravados. Isso considerando que a parte das imagens é a mais complexa e o que já vi nesta área se resume a ruídos ou distorções em imagens pré-gravadas. Neste instrumento que construí tudo é gerado por programação e consegui criar um objeto autônomo, que toca animações relativamente complexas para uma placa que tem a capacidade similar aos primeiros videogames dos anos 70/80. O fato de participar de alguma forma do universo dos games talvez tenha sido um fator para este relativo sucesso da obra. Apesar de não ser um videogame, mas um sintetizador audiovisual, a partir das limitações de processamento da placa tive a ideia de trazer na estética da performance uma referência aos games dos anos 80. Também o título sugere que seja um jogo, mas na verdade o que ele faz é criticar vários aspectos dos próprios games e também do comportamento humano. Enfim, foi a soma de um instrumento inovador, com uma parte conceitual coesa e consistente, e também a abertura para a participação do público na performance. Também gastei um tempo divulgando por conta própria, me inscrevendo em editais de festivais etc.

 

Sua agenda é bem movimentada. Existe algum lugar do mundo ou cena que seja mais receptiva ao seu trabalho?

Infelizmente, o lugar onde moro é o que menos valoriza o que faço: Belo Horizonte/Brasil. Isso pode ser comprovado no número de apresentações que faço aqui em BH, que é muito menor do que São Paulo e Rio. Recentemente, com apresentações mais frequentes em festivais da Europa, tem inclusive algumas performances que já apresentei mais fora do Brasil do que por aqui. E isso não acontece somente na parte do live, mas acadêmica também. Um artigo que escrevi sobre a performance “PONTO, um videogame sem vencedor” foi aceito e publicado em revistas importantes da Itália, França, Suécia e participei de um congresso na Argentina. Enquanto isso, não houve interesse de nenhuma publicação nacional. Entendo que o que faço não é bem conhecido no Brasil, mas esta situação me deixa um pouco desaminado de ficar tentando algo por aqui. Minhas influências artísticas são mais europeias e talvez isso cause um estranhamento no público daqui, mas não acho que seja um fator limitador. Pelo contrário, o que busco é que as pessoas, sem a necessidade de saber uma língua específica, consigam apreciar o trabalho.

 Como você usa a tecnologia e a arte gerada a partir dela para estimular os sentidos? De que maneiras isso afeta o seu público?

Trabalho muito com o conceito de sinestesia, buscando, principalmente no HOL, a fusão das características de elementos sonoros e visuais. Tenho pesquisado muito sobre música visual, que seria o uso de técnicas e características da música dentro do campo visual. Encaro as imagens como mais um ator que está em cena, contracenando igualitariamente com o som. Ambos têm o objetivo de criar uma unidade sensorial para quem está assistindo a apresentação. Nos meus trabalhos não há uma hierarquia; todos os elementos contribuem de forma igual para a narrativa e, consequentemente, para o sucesso da performance. O fato de me apresentar em ambientes imersivos, com luz controlada, som alto e imagens de grandes proporções, faz com que eu consiga estimular áreas de percepção diferentes, levando o espectador a uma viagem dentro do tema que estou tratando. A tecnologia ajuda a estimular os sentidos quando uso técnicas de videomapping, por exemplo, que distorcem a arquitetura, ou quando uso sensores para captar movimentos do público em minhas instalações. Tudo isso leva as pessoas a um jeito diferente de ver uma obra de arte, cada vez mais com o fator participativo e com elementos tecnológicos que os fazem se desligar completamente da realidade em que vivem.

Quão interativa pode chegar a ser uma de suas instalações?

O mais importante pra mim é que a interação não seja gratuita, sem sentido. Hoje com a febre das novas mídias, vários trabalhos são criados usando interatividade somente pelo fato dela “estar na moda”. A interação não tem sentido conceitual algum e é usada simplesmente porque TEM que haver alguma. Vários clientes já me pediram interatividades totalmente sem sentido, que não acrescentam em nada à obra e que poderiam acontecer normalmente sem ela, inclusive funcionando melhor se fosse usado um simples mouse. Porém, quando crio meus projetos, faço o oposto disso, deixando nada acontecer de forma banal ou gratuita; a relação entre o conceito e a interatividade é pensada antes de começar a produzir o material e a partir daí faço todas as relações de forma que a interatividade seja realmente importante e acrescente algo à obra. Pra mim, mais do que ser mais ou menos interativa, vale o que toca as pessoas. Às vezes uma interação simples causa muito mais impacto do que algo super complexo. No final, passadas as modas, o que interessa mesmo é a ideia, o conceito. A tecnologia é somente uma ferramenta para potencializá-los.

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Instalação “Deep Screen” @ Creators Project, Nova York.Colaboração com o artistaMutiRandolph.

Você acha que estímulos sensoriais, assim como a interatividade, também podem ser aplicados à publicidade?

Sim, tudo que uso são técnicas, que podem ser aproveitadas tanto para trabalhos completamente autorais quanto em projetos comerciais e corporativos. O videomapping, por exemplo, começou como uma forma de expressão artística e logo foi incorporada pela publicidade, pelo fato de ser uma ótima ferramenta para divulgar ou vender um produto. Os sensores também foram usados inicialmente por artistas buscando novas formas de fazer seus trabalhos e depois passaram a ser usados de forma mais comercial.

 

Que dica você daria para que tanto artistas quanto profissionais da comunicação possam ser mais criativos e evitem o óbvio?

Eu, quando vou criar um trabalho novo e tenho uma ideia que acho parecida com algo que já vi, automaticamente a descarto e busco outra. Eu gosto de fazer coisas diferentes e uma coisa que acho muito chato é ficar fazendo sempre o mesmo. Isso vale para um tipo de atividade, mas também para ideias. E também não acho justo copiar o trabalho dos outros. Isso que é muito difundido hoje, do uso de presets e bases prontas que você dá uma mexida e chama de seu, pra mim não interessa. Eu quero fazer as minhas próprias coisas, ter minha identidade, e não ficar parecido com milhares. Entendo que no processo publicitário a rapidez não permite que se busque tanto a originalidade, além do fato que um dos fatores importantes para ela é exatamente a redundância – as pessoas têm que se identificar com aquilo que estão vendo para criar uma relação direta com o projeto. Mas na arte é diferente, pelo menos pra mim. É onde eu posso ir mais fundo na minha criatividade, sem limites, a fim de fazer trabalhos cada vez mais com a minha cara e com o que tenho a dizer.

Obrigado pela participação. Sinta-se livre para usar o espaço aqui para fazer alguma divulgação ou dar o seu recado, seja ele qual for.

Obrigado pelo convite. Quem quiser conhecer mais sobre o meu trabalho pode encontrar bastante material nos sites:

www.1mpar.com
vimeo.com/1mpar

 

Entrevista: Frederico Borges
Fotos e vídeos: divulgação VJ 1mpar

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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